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A notícia era cabeçalho dos jornais: As cenouras poderiam prevenir o cancro da garganta. As novas investigações sugeriam que comer 5 ou 6 desses tubérculos parecia reverter a leucoplaquia – uma lesão pré-cancerosa da boca e da garganta.
A minha amiga Joana comprou imediatamente uma máquina que transformava as cenouras fresquinhas em sumo.“Quanto sumo é que consegues com 5 cenouras?”, perguntei-lhe um dia. Os seus olhos brilharam. “Oh, não paro nas 5! Com esta máquina consigo comer 2 a 3 quilos por dia!”

Terá sido uma boa ideia?
É verdade que os legumes e hortaliças são uma parte importante de uma alimentação saudável. Também é verdade que cada vez se dá mais valor ao seu papel preventivo de doenças.
Mas, 3 quilos do mesmo vegetal por dia?!O organismo da Joana acabou por se revoltar. A sua pele começou a ficar de um amarelo doentio. Com medo de que fosse hepatite, foi ao médico. Ele explicou-lhe que a cenoura contém um corante laranja?avermelhado, conhecido como betacaroteno. O organismo consegue lidar com pequenas quantidades dessa substância, mas, se for em excesso, ela é armazenada no fígado, na pele e nas membranas mucosas, tornando-as da cor da cenoura. As cenouras e outros vegetais e frutas amarelos são ricos em betacaroteno (pró-vitamina A), uma substância que protege o organismo de vários tipos de cancro. Outras vitaminas que também o fazem são a C e a E. No entanto, quando consumidas em excesso, as vitaminas A, C e E podem ter efeitos nocivos no corpo.

Esta experiência fê-la mudar de atitude?
Durante algum tempo. Mas os seres humanos têm, por vezes, comportamentos estranhos. Antes da brincadeira das cenouras, a Joana já tinha sido arrastada pelo entusiasmo dos flocos de aveia. Contudo, depois de alguns meses de papas e bolos de aveia, estava pronta para uma mudança.

Esta é uma mensagem dura para o mundo de hoje. As pessoas fazem quase tudo em excessocomem de mais, trabalham de mais, gastam de mais, divertem-se de mais! Moderação é um conceito muito saudável. É verdade que devemos evitar aquilo que é prejudicial, mas devemos também ser cautelosos no uso daquilo que é bom! O organismo humano é capaz de tolerar excessos durante muito tempo – até mesmo 2 quilos de cenouras por dia! Mas a verdadeira questão é que o equilíbrio, não só no que comemos, mas em todo o nosso estilo de vida, é a chave de uma saúde e felicidade duradouras.

Algumas coisas parecem não ser tão más. E se as consumir com moderação?
Uma boa pergunta! Para responder terá que ser honesto consigo mesmo. Analisemos três exemplos de casos mediáticos – o tabaco, o álcool e a cafeína.

O Tabaco – Antes da segunda metade do século XX, chegou-se a afirmar na comunidade científica que o tabaco era benéfico para a saúde. À medida que mais estudos eram realizados, chegou-se à conclusão de que, em vez de benefícios, o tabaco só traz prejuízos! Hoje, não há dúvidas de que o tabaco é o maior factor de risco no desenvolvimento do cancro do pulmão e de outros tipos de cancro, assim como das doenças cardiovasculares. Mesmo o consumo ligeiro a moderado aumenta significativamente o risco destas doenças. Para além disto, os não-fumadores que vivem ou trabalham perto de fumadores e respiram o ar contaminado pelo fumo dos cigarros, correm um risco elevado de eles mesmos virem a sofrer dessas doenças.

E o café?
O consumo de bebidas com cafeína pode provocar:
 - Aumento da tensão arterial;
 - Aumento do nível de açúcar no sangue;
 - Agravamento de ansiedade;
 - Maior produção de ácido pelo estômago;
-  Aumento dos triglicéridos;
 - Insónia;
 - Aumento da osteoporose.
O Álcool – Quanto ao álcool, a questão suscita ainda maiores debates! Os meios de comunicação social apresentam frequentemente pessoas (incluindo profissionais de saúde) a defenderem o consumo moderado de bebidas alcoólicas, nomeadamente de vinho, alegando o seu factor protector das doenças cardiovasculares. Tudo teve início no final dos anos 80 do século XX, quando foram publicados os primeiros estudos que pareciam indicar que o vinho oferece alguma protecção contra estas doenças. No entanto, pouco tempo depois, foram publicados novos estudos que demonstravam ser algo presente nas uvas, e não no vinho em si, que oferece protecção contra estas doenças. Beber um copo de sumo de uva, especialmente da preta, confere a mesma protecção e não tem os efeitos indesejáveis das bebidas alcoólicas!É que, para além dos efeitos emocionais e sociais do álcool na família e na sociedade, bem evidentes na sociedade portuguesa, mesmo o consumo moderado de bebidas alcoólicas aumenta o risco de cancro da mama, das doenças hepáticas e gástricas, e de outros problemas de saúde. Por estas e outras razões, a Organização Mundial de Saúde – OMS – não recomenda o uso de bebidas alcoólicas como protecção contra as doenças cardiovasculares! Para além disto, é impossível dizer quem se tornará num alcoólico, ao começar a beber ocasionalmente ou moderadamente!

Saúde&Lar, Março 2006

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